sexta-feira, 22 de agosto de 2008

18 - 19 de maio de 2008 - O início da viagem e chegada

Dizem que a peregrinação tem início quando você sai de sua casa.

Realmente era isso que eu sentia. Saímos todos da família para o aeroporto, onde pudemos compartilhar de um tempo para lanchar e despedir junto ao portão de embarque.

Dentro da área de embarque comecei a procurar identificar um potencial peregrino para poder compartilhar as ansiedades e expectativas. Nenhuma pessoa com vestimenta ou apetrechos (mochila) de peregrino.

Viajo ao lado de jovem um padre, mas não conversamos. Chegada a Madrid. Tudo dentro da máxima normalidade.

A passagem pela imigração foi rápida, o oficial nem leu a ficha, apenas destacou a minha via do formulário, carimbou o passaporte e pronto. Nenhuma pergunta, diferentemente do que vinha ocorrendo há poucos meses atrás com os brasileiros.

O aeroporto de Barajas é bonito, amplo, bem sinalizado e organizado. Pensei que fosse encontrar algum peregrino mas não encontro nenhum até a hora do embarque.

Em Pamplona Juan, o motorista de táxi, me aguarda no café do aeroporto com uma placa com meu nome. Vamos ao correio despachar o pacote para o Acácio. Recebo um formulário contendo algumas inscrições em basco, um primeiro indício da diversidade cultural e social que o Caminho nos oferece. A atendente diz que são 8 euros na remessa normal com entrega e uma semana ou vinte, em dois dias. Considerando que o Acácio já tinha esperado quase um mes, despacho pelo mais barato. É o espírito do peregrino.

Durante o percurso Juan me aconselha a "sentir" o Caminho, ler a natureza e não sofrer, como alguns o fazem. Às vezes ele abre a janela para ouvirmos a cascata à beira da estrada, fala para observar os bois e carneiros: Se estiverem todos com o dorso virado para um lado, é de lá que virá a chuva. Se estiverem todos juntos, prepare-se para uma tormenta. Não deitar no bosque, pois há o risco de galhos caírem em função da neve ou vendavais que os deixaram frageis. Procurar por lugares mais abertos. Outra sugestão é aproveitar ao máximo o primeiro e maior bosque do caminho. Levar muita água. Não forçar o corpo, pois o metabolismo ainda não se ajustou ao novo ambiente. Ar, clima e altitude influem muito no nosso corpo.

Juan fala do sobre o Ícaro, um pequeno boneco que entregara a um peregrino, e pedira para entregar a outro peregrino que viesse de seu país de origem, com isso ele saberia que o peregrino teria chegado bem à sua casa. Hoje Ícaro esta na Itália e deve retornar breve.

Peço indicações de hospedagem e ele me diz que há muitas opções e não me preocupar. Antes de chegarmos a Saint Jean Pied Du Port ele me informa que conhecera uma senhora, a Maria, que alugava quartos, mas que desconhecia o preço. Chegamos a Saint Jean e nos despedimos com um abraço fraternal. A temperatura deve estar uns 13 graus Centigrados.

Passo em frente ao albergue da Associação dos Amigos do Caminho, mas prefiro não me hospedar por lá, pois só aceitam peregrinos por uma noite. Logo após entro no albergue L'esprit Du Chemin para ver se há alguma vaga. Negativo. Resolvo bater na porta do n. 15 da rue de Citadele e sou recepcionado pela Maria Camino , uma simpática senhora, que fala espanhol e confirma a disponibilidade de vaga por 20 euros o permoite, mais um petit dejeneur.

O quarto é compartilhado, mas não tem problema. Estou preparado para roncos alheios.

Desço para almoçar e Maria recomenda "Paxkal Oillarburu - Ostatua - Pascoal em cima dos montes" que serve pratos a 13 euros. O local é muito aconchegante. Chama a atenção a separação entre o salão e a área da cozinha e caixa. Dividida por uma porta envidraçada ela possui mesas onde um grupo de senhores almoça e conversa animadamente em basco. Do lado de cá, onde ficam os clientes, só se fala em frances.

Após o almoço procuro caminhar para cansar e adaptar-me ao fuso horário.

Visito a igreja Notre-Dame-du-Bout-du-Port, construída no século XIV, cujas fundações iniciais datam de 1212, pelo rei Sanche após sua vitória contra os mouros em Las Novas de Tolosa. Passo pela rue de Citadelle que fica dentro das muralhas que protegem um forte localizado no topo do morro e depois a própria Citadelle, uma fortificação no alto do morro.



Passa-se uma hora e após conhecer toda a cidade, penso em partir no dia seguinte, mas reconsidero e acho que o corpo merece mais um dia de adaptação.

O que impressiona é a oscilação da temperatura. O vento surge e aumenta, de repente. A sensação de frio e a umidade combinada com o calor do corpo condensa e molha a parte interna do meu agasalho impermeável.

Volto para a pensão para um banho e breve descanso. Saio de novo pela cidade e começo a sentir que os rostos se repetem. Planejo então caminhar por algum tempo no dia seguinte.

Janto em outro restaurante o Hurrup Et'a Klik o local está vazio, mas é aconchegante. O dono fala um pouco de inglês e me explica o significado do nome em basco, algo como vire e beba, mas não é para alguma bebida e sim para a sopa. O prato com vagens finas, batata frita (igual a do Paxkal) e fatias de picanha ao ponto está muito bom. Peço meia garrafa de vinho para acompanhar. O preço, vinte e um euros não é caro, considerando o ambiente e o vinho, que é frances!

Falo que pretendo começar a caminhar na quarta feira e ele disse que ser uma boa idéia, pois a previsão é de tempo bom.

Out 07 - A oportunidade de concretizar um sonho

O desejo de fazer o Caminho de Santiago começou a se materializar quando o meu amigo Nakasima (Naka) falou-me de seus planos sobre como iria realizar a sua peregrinação.

A escolha do período mais adequado, o material, as suas caminhadas preparatórias, as famosas bolhas eram para mim novidades que aguçavam cada vez mais o meu desejo de fazê-lo.

Em um encontro que tivemos após o seu retorno, no final de 2005, conversamos longamente sobre a sua experiência. Nesse mesmo encontro fui presenteado com uma miniatura da Catedral de Santiago que ele trouxera para mim. Mais que uma lembrança ela passa a representar um chamado para fazer o Caminho.

A minha rotina de trabalho impedia de dispôr do tempo necessário para realizar esse sonho.

No final de 2007 surge a oportunidade de me afastar da empresa em que trabalhava há quase toda a minha vida profissional. Uma reflexão feita nessa ocasião, concluí que estava se delineando uma nova fase da minha vida e que fazia por merecer um período de reflexão e dedicação única e exclusiva a questões de ordem pessoal, ou seja: "Um período sabático".

O Caminho de Santiago passa a representar essa fase de transição. Seriam alguns meses iniciais de ajuste da minha nova fase com Qualidade de Vida e de preparo para o caminhar.

Em janeiro de 2008 faço o Caminho do Sol como preparativo para Santiago. Pensei de uma forma racional, como sempre pautara as minhas ações. O Caminho do Sol serviria para amaciar as botas e identificar as minhas necessidades fisiológicas como alimentação, hidratação, preparo físico necessário para caminhadas de longa distância. Ao longo dessa jornada de onze dias descubro que ela me oferece muito mais: a solidariedade humana, a amizade, o despojamento e o amor no sentido mais amplo e nobre dessa palavra.

Ao final do Caminho do Sol, o Palma, seu idealizador, me contempla com uma vieira, símbolo de proteção do peregrino do Caminho de Santiago, que lhe tinha sido dada pelo Jesus Jato.

O planejamento contou com a experiência do Naka, que compartilhou comigo a sua planilha. A Mara, peregrina do Caminho do Sol, foi outra pessoa que me deu dicas fundamentais. O Acácio, hospitaleiro de Viloria de Rioja sugeriu lugares que valiam a pena ser visitados. A Ana Luiza Mascaro "Vó" do Caminho do Sol me indicou o site Mundicamino, de onde extraí os mapas e traçados, os perfis de altimetria e a descrição de cada trecho.

Quanto mais planejava, mais dúvidas surgiam. Em um determinado momento pedi uma opinião ao Acácio e ele me respondeu: "-Ouça seu coração e faça o que ele disser". Para mim foi a resposta definitiva. O plano estava perfeito. Dalí para frente "Carpe diem".

Comprar passagens e planejar a segunda fase da viagem com a Yo (minha esposa) que iria me "resgatar" em Santiago de Compostela.

Na semana que antecede à partida, encontro no site do Acácio e Orietta algumas frases do Paulo Coelho. Sinto que elas captam a essência da peregrinação e resolvo adotá-las como companheiras de minha viagem:

1] Você já chegou. Portanto, sinta o prazer em cada passo, e não fique preocupado com as coisas que ainda tem que superar. Não temos nada diante de nós, apenas um caminho para ser percorrido a cada momento com alegria. Quando praticamos a meditação peregrina, estamos sempre chegando, nosso lar é o momento atual, e nada mais.

2] Por causa disso, sorria sempre enquanto andar. Mesmo que tiver que forçar um pouco, e achar-se ridículo. Acostume-se a sorrir, e terminará alegre. Não tenha medo de mostrar seu contentamento.

3] Se pensa que paz e felicidade estão sempre adiante, jamais conseguirá atingi-las. Procure entender que ambas são suas companheiras de viagem.

4] Quando anda, está massageando e honrando a terra. Da mesma maneira, a terra está procurando ajuda-lo a equilibrar seu organismo e sua mente. Entenda esta relação, e procure respeita-la – que seus passos sejam dados com a firmeza de um leão, a elegância de um tigre, a dignidade de um imperador.

5] Preste atenção ao que acontece a sua volta. E concentre-se em sua respiração – isso o ajudará a libertar-se dos problemas e das ansiedades que tentam acompanha-lo em seu caminho.

6] Ao caminhar, não é apenas você que está se movendo, mas todas as gerações passadas e futuras. No mundo chamado de “real” o tempo é uma medida, mas no verdadeiro mundo não existe nada além do momento presente. Tenha plena consciência que tudo que já aconteceu e tudo o que acontecerá está em cada passo seu.

7] Divirta-se. Faça da meditação peregrina um constante encontro consigo mesmo; jamais uma penitência em busca de recompensas. Que sempre cresçam flores e frutas nos lugares onde seus pés tocaram.

A narrativa que se segue é um misto de imagens e anotações que colhi durante o Caminho. Creio que ela responde a muitas perguntas que meus amigos têm feito a mim.

Os meus agradecimentos à aqueles que apreciarem esse blog e minhas desculpas por erros de gramática ou falta de um estilo de redação apropriado.

Nelson M Segoshi