Realmente era isso que eu sentia. Saímos todos da família para o aeroporto,
Dentro da área de embarque comecei a procurar identificar um potencial peregrino para poder compartilhar as ansiedades e expectativas. Nenhuma pessoa com vestimenta ou apetrechos (mochila) de peregrino.
Viajo ao lado de jovem um padre, mas não conversamos. Chegada a Madrid. Tudo dentro da máxima normalidade.
A passagem pela imigração foi rápida, o oficial nem leu a ficha, apenas destacou a minha via do formulário, carimbou o passaporte e pronto. Nenhuma pergunta, diferentemente do que vinha ocorrendo há poucos meses atrás com os brasileiros.
O aeroporto de Barajas é bonito, amplo, bem sinalizado e organizado. Pensei que fosse encontrar algum peregrino mas não encontro nenhum até a hora do embarque.
Em Pamplona Juan, o motorista de táxi, me aguarda no café do aeroporto com uma placa com meu nome. Vamos ao correio despachar o pacote para o Acácio. Recebo um formulário contendo algumas inscrições em basco, um primeiro indício da diversidade cultural e social que o Caminho nos oferece. A atendente diz que são 8 euros na remessa normal com entrega e uma semana ou vinte, em dois dias. Considerando que o Acácio já tinha esperado quase um mes, despacho pelo mais barato. É o espírito do peregrino.
Durante o percurso Juan me aconselha a "sentir" o Caminho, ler a natureza e não sofrer, como alguns o fazem. Às vezes ele abre a janela para ouvirmos a cascata à beira da estrada, fala para observar os bois e carneiros: Se estiverem todos com o dorso virado para um lado, é de lá que virá a chuva. Se estiverem todos juntos, prepare-se para uma tormenta. Não deitar no bosque, pois há o risco de galhos caírem em função da neve ou vendavais que os deixaram frageis. Procurar por lugares mais abertos. Outra sugestão é aproveitar ao máximo o primeiro e maior bosque do caminho. Levar muita água. Não forçar o corpo, pois o metabolismo ainda não se ajustou ao novo ambiente. Ar, clima e altitude influem muito no nosso corpo.
Juan fala do sobre o Ícaro, um pequeno boneco que entregara a um peregrino, e pedira para entregar a outro peregrino que viesse de seu país de origem, com isso ele saberia que o peregrino teria chegado bem à sua casa. Hoje Ícaro esta na Itália e deve retornar breve.
Peço indicações de hospedagem e ele me diz que há muitas opções e não me preocupar. Antes de chegarmos a Saint Jean Pied Du Port ele me informa que conhecera uma senhora, a Maria, que alugava quartos, mas que desconhecia o preço. Chegamos a Saint Jean e nos despedimos com um abraço fraternal. A temperatura deve estar uns 13 graus Centigrados.
Passo em frente ao albergue da Associação dos Amigos do Caminho, mas prefiro não me hospedar por lá, pois só aceitam peregrinos por uma noite. Logo após entro no albergue L'esprit Du Chemin para ver se há alguma vaga. Negativo. Resolvo bater na porta do n. 15 da rue de Citadele e sou recepcionado pela Maria Camino , uma simpática senhora, que fala espanhol e confirma a disponibilidade de vaga por 20 euros o permoite, mais um petit dejeneur.
O quarto é compartilhado, mas não tem problema. Estou preparado para roncos alheios.
Desço para almoçar e Maria recomenda "Paxkal Oillarburu - Ostatua - Pascoal em cima dos montes" que serve pratos a 13 euros. O local é muito aconchegante. Chama a atenção a separação entre o salão e a área da cozinha e caixa. Dividida por uma porta envidraçada ela possui mesas onde um grupo de senhores almoça e conversa animadamente em basco. Do lado de cá, onde ficam os clientes, só se fala em frances.
Após o almoço procuro caminhar para cansar e adaptar-me ao fuso horário.
Visito a igreja Notre-Dame-du-Bout-du-Port, construída no século XIV, cujas fundações iniciais datam de 1212, pelo rei Sanche após sua vitória contra os mouros em Las Novas de Tolosa. Passo pela rue de Citadelle
Passa-se uma hora e após conhecer toda a cidade, penso em partir no dia seguinte, mas reconsidero e acho que o corpo merece mais um dia de adaptação.
O que impressiona é a oscilação da temperatura. O vento surge e aumenta, de repente. A sensação de frio e a umidade combinada com o calor do corpo condensa e molha a parte interna do meu agasalho impermeável.
Volto para a pensão para um banho e breve descanso. Saio de novo pela cidade e começo a sentir que os rostos se repetem. Planejo então caminhar por algum tempo no dia seguinte.
Janto em outro restaurante o Hurrup Et'a Klik o local está vazio, mas é aconchegante. O dono fala um pouco de inglês e me explica o significado do nome em basco, algo como vire e beba, mas não é para alguma bebida e sim para a sopa. O prato com vagens finas, batata frita (igual a do Paxkal) e fatias de picanha ao ponto está muito bom. Peço meia garrafa de vinho para acompanhar. O preço, vinte e um euros não é caro, considerando o ambiente e o vinho, que é frances!
Falo que pretendo começar a caminhar na quarta feira e ele disse que ser uma boa idéia, pois a previsão é de tempo bom.
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