quinta-feira, 11 de setembro de 2008

20 de maio - Sentindo o "clima" da peregrinação

Acordo às 7 horas após uma noite muito bem dormida. Desço para tomar o café às 7h40m, pensando ser o último.

Ao chegar na cozinha eis que Maria me cumprimenta "bon jour !" e diz que sou o primeiro a tomar café. Ela me faz companhia. Diz que tem parentes em Buenos Aires e viaja a cada 3 anos para lá, diz que gostaria de ir todos os verões, mas que nao é possivel frente aos custos.

Logo chegam duas austríacas de Salzburg e poucos minutos depois um casal canadense de Quebec. À mesa fala-se numa mistura de francês, espanhol, ingles e qualquer outra combinação maluca dos três idiomas.

Os canadenses começaram a caminhar em Le Puy, a 600 km, estão há dois dias em Saint Jean pois o marido está com tendinite e planejam sair na quarta. As austriacas vão para em Orrisom (uma opção para quem não deseja ir direto a Roncesvalles).

Deixo a mesa para exercitar um pouco, Maria sugere eu levar a capa. Por recomendacao também da Maria resolvo ir pelo caminho para Roncesvalles. Pego meus cajados e saio. Passo na boulangerie e compro uma garrafa de água (1,5 euros por meio litro. Acho que por esse mesmo valor compraria meio de vinho!).

Na saída da cidade me lembro das saidas do Caminho do Sol: Sempre uma subida !

O caminho segue, bem sinalizado, por uma estrada rural asfaltada. São vários peregrinos caminhando."Bon jour", cumprimentam. "Bon jour" y "buen camino" respondo. Respodem: "Mercy", "Ya", "Gracias", "Buen camino", ou com um sorriso sem graça, do tipo "nao entendi, mas obrigado".

A subida é realmente desafiadora, mas o cansaço desaparece se interagirmos com a paisagem e os animais. A respiração, de vez em quando, me lembra que estou um pouco acelerado. Passo por peregrinos descansando, apreciando a paisagem, tomando água, ajustando mochilas e por ciclistas pedalando intensamente (esses penam mais que os caminhantes e usufruem menos que eles).

Passo por Huntto, sigo por mais 1km e resolvo retornar após 2h de caminhada, já quase no topo da subida.

Observo que são muitos e muitos peregrinos, devo ter cruzado com umas 30 pessoas de diversas idades, que aparentavam desde 70 anos ate mais jovens de 20 e poucos anos.

Próximo de Saint Jean cruzo com a dupla austríaca da pensão. Já tinha passado mais de três horas que elas haviam deixado a mesa para sair.

Retornando a Saint Jean compro uma baquete, jambom e queijo para um lanche típico frances!

Valeu até uma foto para posteridade.


Já no quarto, enquanto estava registrando essas memórias, Maria abre a porta. Ela traz um peregrino que está a procura de local. Ao ver que tinha que compartilhar ele diz que quer um quarto privado, nem ouve a Maria dizer que os albergues estavam lotados e desce as escadas.

Mais tarde saio para pegar o carimbo na minha credencial. Subindo pela rua observo o mesmo peregrino descendo com a mochila nas suas costas. Passo na Associação dos Peregrinos onde obtenho o carimbo e recebo um mapa com a altimetria do trecho até Roncesvalles e uma tabela de albergues até Santiago de Compostela.

Albergue de peregrinos

De volta ao albergue Maria pergunta se lembrava da pessoa que queria um quarto. Disse que sim e ela diz: -Pois é. Ele retornou em busca de um lugar para ficar e eu lhe disse que já estava cheio e completou "si desea una habitacion con baño privado que se quede en un hotel!, hay muchos hoteles en esta ciudad".

Ela está certíssima, há muitos hoteis na cidade. Me lembro de ter visto na Internet a oitenta Euros a diária, sem café da manhã. Esse peregrino tem muito a aprender.

Cá estou no quarto "privado".

Resolvo passar a limpo meu plano, não sem antes tomar um vinho nacional acompanhado de queijo e pão, pois a vida de peregrino deve ser bem parcimomiosa.

Passado a limpo, ou melhor "a vinho e queijo nacional", saio para caminhar um pouco para abrir o apetite e às 20h40m entro no restaurante onde peço um " Merlu a la plache", pensando na merluza brasileira, e recebo algo totalmente diferente e melhor, pois tem um novo sabor. Nada melhor do que vivenciar esse tipo de experiência.

De volta à pensão, aproveito a última noite para preparar a mochila com toda a roupa bem lavada (obrigado Maria) e coloco a vieira dada pelo Jesus Jato ao Palma, de quem ganhei quando fiz o Caminho do Sol pela primeira vez. Ela fica próxima ao coração que, junto com todos os meus amigos me guiarão até Santiago.

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