Tempo bom sol e frio à saída de Frómista. Tomo café com a Deisi e saímos. Paulo e Jeong ficam para trás. O caminho plano e o tempo ajudam. A saída de Frómista passa por uma via em reforma, o que nos confunde. Tento me orientar pelo mapa e seu norte geográfico. A indicação é seguir para noroeste e as setas para sudoeste. Seguimos as setas e lógico. Dá certo!
Após a saída de cidade a sinalização é abundante.
Paramos em Villalcazar de Sirga para tomar café e tortilla. Conversamos sobre Luque, o francês estranho e a Jéssica, a portuguesa que caminha com ele. O tempo começa a mudar e esfria. Lembro de a igreja local ter sido o quartel general dos templários. Retornamos uns 200m para visitá-la.
Seguimos para Carrillon de los Condes. Bela cidade. Vamos ao albergue mantido por freiras. O aspecto clean me dá vontade de ficar. A freira me pergunta se vou pernoitar e digo que não. Oferece-me uma limonada e aceito. Acompanha a Deisi e outro peregrino para mostrar o quarto.
Vou para a praça tomar sol e aguardar pela Deisi que quer pagar um café. Despedimo-nos e sigo pelas ruas da cidade observando o quanto ela oferece de serviços e comércio. De repente, quem está sentado em um banco? O Luque !
Sinto um misto de cansaço e insegurança por ter a necessidade de observar as setas para não me perder. O primeiro quilômetro é uma prova se resistência mental e física, pois já havia caminhado por 5 horas antes de começar esse novo trecho. Parece interminável. Não me sinto só ao ler no guia que o trecho de terra, em que estava, ser a rota original do Caminho. Penso nas milhares de pessoas que por la já haviam passado há séculos atrás, sem as atuais tecnologias de mochilhas, botas, roupas leves meias, MP3 e celular ! Tem hora que o silêncio e o cansaço (em todo o percurso de 3h40m cruzei com 2 carros , 4 ciclistas e dois peregrinos) deixam a gente a beira de um delírio. Paro para comer uma banana e ligar meu MP3. Combinar jazz com caminhada ajudou um pouco a afastar a solidão.
Ao final de uma longa reta observo uma subida e imagino: " Dalí verei a cidade...". Mas, ao lá chegar, se via mais caminho apenas.
De repente avisto uma ponta de uma torre de igreja, nada mais. Depois de longos minutos observando somente a torre, abre-se a cidade, em uma baixada, aonde chego em menos de 5 minutos.
Chego ao albergue ás 14h30m e vejo muita gente já acomodada, tomando sol em um belo jardim. A recepção está fechada. Encontro o hospitaleiro cortando a grama. Digo-lhe que havia feito uma reserva e ele me pede para que o acompanhe. Na recepção chega outro peregrino. O hospitaleiro, em um misto de espanhol com português, pede para retirar a botas. Mostro-lhe a credencial e digo "Boa tarde!" em um bom português, no que ele pergunta: "brasileiro?". Digo que sim e pergunto se ele é o Neném, "um baiano porreta", conforme ilustrara o Acácio. Ele confirma.
Ao conduzir-me ao quarto uma surpresa. Ele me libera o piso superior. Sozinho, enquanto que o piso térreo estava cheio.
Aproveito para relaxar e lavar toda a roupa. Neném pede para deixar com ele.
Saio para "conhecer" a cidade e vou ao bar/hostal cujo dono, Carlos, é também o proprietário do albergue. Acomodo-me às mesas externas aproveitando o sol e tomando uma cerveja. De repente ouço um ruído estranho e vejo uma manada de ovelhas subindo a rua. Passam sem a menor cerimônia junto às mesas do bar e seguem rua acima.
Volto ao bar e encontro com o Nicholas, médico inglês, que me oferece uma cerveja. Agradeço, batemos um papo sobre o Caminho. Retribuo sua gentileza.
À noite jantamos. Sinto certa dificuldade em entender o sotaque britânico. Diz ser casado e ter a três filhas e um filho; A esposa é pesquisadora de história da economia e vai encontrá-lo no dia 24 em Santiago. Diz ser protestante e que decidiu fazer a peregrinação após uma conferência médica em Santiago. Ao observar a chegada de peregrinos na Praça do Obradoiro, conversou com alguns deles sobre os motivos. Percebeu que a peregrinação transcendia a religião.
Diz que todos estão curiosos em saber por que estava acomodado sozinho no andar de cima. Digo-lhe que o hospitaleiro havia dito que era porque eu tinha feito reserva. Disse-lhe que havia um casal francês e um ciclista espanhol. O fato é que senti que havia uma solidariedade brasileira no ar.
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