sábado, 13 de setembro de 2008

11 de junho Astorga - Dia de reencontrar um dos meus "demonios" do caminho

De manhã encontro com o Acácio e conversamos no salão quando chega Bárbara. Ela conta que estava quase desistindo do Caminho em León. Chegara a ir até o aeroporto para antecipar seu retorno ao Brasil, mas algo a fez desistir da idéia. Ela estava radiante pelo fato de ter encontrado um grupo de poloneses e brasileiros no albergue o que a deixava motivada a seguir.

Bárbara nos deixa para se juntar aos poloneses para tomar café.

Sigo conversando com o Acácio, sobre a tendinite e do fato de não gostar de caminhar à beira da estrada. "Talvez sejam os seus demônios" diz ele. Conheço Marcel e Edinho, brasileiros que vivem na Espanha e estão com a equipe de montagem da exposição da Cristina. Despeço-me do pessoal e saio em direção a Astorga.

Ao chegar à Villares de Órbigo, centenas de andorinhas sobrevoam pela cidade ainda deserta. Os sinos da igreja como por todo o caminho, nos acompanham, repicando a cada 15 ou 30 minutos, dia e noite, dependendo da cidade.

Homenagem aos peregrinos na Cidade de Villares de Órbigo

Penso no significado da palavra religião: Religar. Religar o homem ao sagrado, a algo superior, desconhecido. Penso nas milhares e milhares de pessoas que fizeram o Caminho e nos outros que virão, independentemente de sua religião, movidos por algo que chama por elas.

Ao aproximar de Astorga somos contemplados com uma bela visão dessa cidade no alto de uma montanha, onde se localiza a Cruz de Santo Toríbio.

Vista de Astorga
Chego às 13h em Astorga. Passo pelo albergue paroquial onde a maioria se hospeda. Vou para o San Javier, um albergue privado, por recomendação do Acácio. É um palácio do século XVII restaurado e modernizado internamente. Chego ao local e confirmo tudo o que ele dissera. A hospitaleira se chama Chus, jovem, simpática diz que não preciso tirar as botas. Ela me mostra as acomodações. Chuveiros, banheiros, lavatórios e tanques devidamente organizados. Quarto enorme com mais de 100 lugares (camas e beliches), muitas janelas, o que o deixa bem arejado. Escolho uma cama bem ensolarada, embaixo da janela.

Albergue San Javier

Começo a arrumar a cama, quando surge a Jéssica, a portuguesa que caminhava com o Luque. Desta vez acompanhada por um senhor, aparentemente alemão. Ela se queixa de dores e diz ter vindo de carona.

Saio para comer Maragato, prato típico de Astorga, que tem origem nos maragatos, um povo viajador e empreendedor, percorriam toda a região ocidental e central da Espanha vendendo principalmente seus produtos artesanais. O cozido servia para alimentá-los em uma só refeição, seguindo uma ordem específica para comer os alimentos mantida até hoje.Primeiro prato: carnes (pés e orelhas de porco, cordeiro, toucinho, chouriço, morcela, frango e carne de vaca); segundo prato: grão-de-bico cozido com repolho, verduras e batatas; para terminar, sopa de macarrão e "el postre" a "natilla", doce cremoso feito com ovos, açúcar e leite e que se assemelha a um mingau de maisena.

Passo por diversos restaurantes, inclusive do Hotel Gaudí e opto pelo "Las Termas". Sou o primeiro cliente. O dono me atende e ao saber que sou brasileiro, diz que esteve no Brasil em fevereiro (Rio e Bahia), coloca como fundo musical um "Axé" e começa a servir os pratos.

A cada um deles pergunta se está bom e se não quero mais de algo específico? Da próxima vez pagarei o almoço a quem comer tudo que eles servem. É insana a quantidade.

Ao término do almoço pergunto pelo seu nome: "Santiago" diz ele e me dá um cartão do restaurante, localizado à Rua Santiago número 1.

" Si vais a Las Termas en Astorga no te olvides de ir a Santiago ". Frase inscrita no livro de visitas do Las Termas.

No albergue encontro com a Bárbara, a polonesa. Ela se queixa das dores e diz que fora convidada por outro peregrino a ficar em um hotel. Ela negara. Digo a ela que ele poderia estar bem intencionado. Ela diz que não. Coisas do Caminho...

Ao adentrar no quarto, quem está na cama vizinha: Luque (o francês)! Definitivamente o meu demônio. "Fujo dele e sempre aparece".

Ao sair depois da "siesta" encontro com as austríacas, no mesmo albergue, as de SJPDP. Saio pela cidade e vejo os mesmos rostos.

Visito o museu e o palácio inacabado de Gaudi. Lembro do Danilo, meu filho, que me falara da obra inacabada desse arquiteto, e vejo que a sua obra maior foi a, também inacabada, catedral de Barcelona, onde passara seus últimos dias dedicados à obra, tendo recusado qualquer outro projeto, a ponto de viver dentro da dela.

Palácio episcopal (Obra inacabada de Gaudí)


Detalhes do interior do palácio


Reencontro Isabella na Plaza Mayor onde entro em uma loja para fazer um backup das fotos.

Resolvo comprar a janta pronta no supermercado e, na saída, reencontro a Jéssica, que me apresenta a Cristina, brasileira de Freguesia do Ó. Cristina comenta que está com medo do francês que estava com a Jéssica. Parece quer ele tem diversas credenciais em diversos nomes. Ele teria se masturbado em frente da Jéssica. Digo a ela que se for o caso, poderíamos sair e caminhar juntos ela agradece e entra para jantar com a Jéssica e seu amigo.

Volto para o albergue. Janto o prato de supermercado: "risoto de mejillones". A Bárbara está sendo atendida por um massagista do albergue. Converso com ela e vou dormir.

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