domingo, 14 de setembro de 2008

Referências e arquivos para o caminho de Santiago

Informacoes adicionais para o Ano Santo (2010)

Este blog foi criado inicialmente para compartilhar a minha experiência com todos aqueles que tinham ou têm curiosidade sobre o Caminho de Santiago. Ele seria eliminado tão logo deixasse de ter acessos.

Passados 18 meses de sua publicação, ele ainda tem tido acessos frequentes, o que me motiva a compartilhar novas informações que obtive com amigos e outros peregrinos.

Além disso resolvi fazer o Caminho Português, aproveitando a minha ida ao "Velho Continente" e que deverá trazer mais informações para o futuro próximo.

Desse modo esta pagina terá novas inserções ou atualizações a medida que surgirem.

Nelson - 12 março de 2010

Esta página contém links de páginas e arquivos que podem ser úteis aos peregrinos que planejam realizar o Caminho de Santiago.

Ela não tem a pretensão de ser definitiva e nem completa. Apenas busca compartilhar as informações que possam agregar valor ao seu plano.

Caso queiram sugerir novos links, inserção de arquivos, encaminhar críticas ou sugestões comuniquem-se pelo meu email : n.segoshi@ieee.org



Links de interesse:

1. Sites com informações sobre o Caminho de Santiago (história, dicas, grupos de discussão, caminhadas preparatórias, mapas, etc.)

Site de Acácio e Orietta- Sempre com informações atualizadas sobre o Caminho de Santiago (essencial para os brasileiros que planejam fazer o Caminho)

Associação de Confrades e Amigos do Caminho de Santiago de Compostela-São Paulo-Brasil.

Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago

Oficina de Turismo de España em São Paulo
- Informações turisticas e material sobre o Caminho de Santiago.

Blog do peregrino Wolfgang Ihman (em alemão e trechos em português). Relato de sua experiência e fotos. Esse peregrino saiu da Alemanha com um amigo que cancelou a peregrinação por ter fraturado a perna. Seguiu só, mas certamente fez muitos novos amigos no caminho (eu incluso).

Site do Naka Peregrino: o que me inspirou a percorrer o Caminho de Santiago. Dicas de caminhadas e atividades que objetivam a qualidade de vida.

Portal do peregrino

Portal do peregrino do Arcebispado de Santiago de Compostela. Informações para peregrinos e estatísticas (espanhol, inglês, italiano, alemão e francês)

O Caminho de Santiago de Compostela ( Guy Veloso)

Mundicamino (espanhol). Vale a pena pois tem relação de albergues, mapas, altimetria e detalhes de todos os trechos).

Red de Albergues Privados del Camino de Santiago (espanhol). Possui a lista de albergues privados no Caminho de Santiago. São ótimas opções. Vários deles operam por doações.

A literatura odepórica e a peregrinação jacobea : um estudo sobre a espiritualidade nos relatos dos peregrinos brasileiros no Caminho de Santiago.(português). Uma excelente dissertação de mestrado da PUC SP de autoria de Paulo Cesar Giordano Nogueira. Apresenta a história da rede de caminhos que a compôem e a espiritualidade dos peregrinos que fazem do Caminho algo que transcende a religiosidade.



2. Planilha, mapas e guias que utilizei no Caminho

Obs.: Algumas pessoas tem tido dificuldade em baixar os documentos. Não hesite em me enviar um email, caso isso ocorra com você.

a. Planilha com plano original (baixe e ajuste ao seu plano). Os comentários são opiniões pessoais de amigos e estão inseridos em um contexto temporal e espacial. Lembre-se que o Caminho muda a cada dia. (Necessário Excel).

b. Mapas com os trechos

Esses mapas, em formato PDF, contém 3 etapas em cada arquivo. Eles podem ser impressos em frente e verso, de modo a compor, com 11 folhas, o mapa completo do Caminho. Eu as imprimi em branco e preto sem perda de qualidade e as usei por todo o Caminho. As etapas não representam os dias da minha planilha do item a. Procurei ajustar às sugestões que recebi dos amigos e que foram muito boas.

. Trechos 1 a 3 - Saint Jean Pied Du Port a Pamplona
. Trechos 4 a 6 - Pamplona a Los Arcos
. Trechos 7 a 9 - Los Arcos a Nájera
. Trechos 10 a 12 - Nájera a San Juan de Ortega
. Trechos 13 a 15 - San Juan de Ortega a Frómista
. Trechos 16 a 18 - Frómista a El Burgo Raneros
. Trechos 19 a 21 -
El Burgo Raneros a Villadangos Del Páramo
. Trechos 22 a 24 - Villadangos Del Páramo a Ponferrada
. Trechos 25 a 27 - Ponferrada a Sarria
. Trechos 28 a 30 - Sarria a Arzua
. Trecho 31 - Arzua a Santiago, convenções de sinais e referência

21 de Junho Santiago de Compostela - Comecei o Caminho com as frases e finalizei encontrando-me com o seu autor

A noite foi tranquila, mas a ansiedade da proximidade de Santiago toma conta de todos.

Acordamos às 5h e podemos observar que uma neblina ainda cobre a cidade. Saímos às 6h na escuridão.
Luiz Alberto

Subimos pela rodovia até entrarmos à direita seguindo as setas amarelas pelo último dia.

Chegamos à entrada de um bosque onde uma bifurcação fez com que um casal de jovens ficassem parados, pois a neblina e a escuridão não permitem visualizar nenhum indicador do Caminho.

Luiz Antonio observa e nos indica o caminho, seguimos todos em frente e o casal atrás de nós.
Procuro por sinais por cerca de 10 minutos, quando surge o primeiro. Que alívio!

Começa a clarear e logo o sol começa a surgir dissipando lentamente a neblina e trazendo o prenúncio de um bom dia. O dia de nossa chegada a Santiago de Compostela.



O amanhecer

Surgem o sol e as nossas sombras, sempre à nossa frente.

Os quatro peregrinos e as suas inseparáveis sombras


Às 10h chegamos ao Monte de Gozo.

Monte do Gozo

Uma pausa para café, fotos e preparar o espírito para entrar em Santiago de Compostela. Divido em quatro a minha última barra de cereais que trouxe do Brasil.

Luiz Antonio diz que devemos entrar cantando na cidade. Não surge nenhuma idéia. Ele começa a recitar versos de Bochincho de Noel Guarany e depois ouvimos música de seu iPhone. É um peregrino hospitaleiro "high tech".


Luiz Antonio declamando Bochincho

Descemos por uma via com Santiago à nossa frente. A sensação é de euforia e de tristeza por esse fim anunciado.

Entramos na Praça do Obradoiro, Luiz Antonio pede para que Luiz Alberto e eu sigamos à frente, pois ele e Carlos já tinham tido essa privilégio. A emoção é grande, o momento é único, a grandiosidade da catedral, peregrinos chegando, os turistas.

Chegada a Santiago

Reencontro o René e nos abraçamos, logo depois encontro com o Wolfgang. Mais um abraço. Era como se reencontrássemos um grande amigo após muito tempo.

Seguimos para o Escritório do Peregrino para obter a Compostela e assistirmos a missa às 12h.

A catedral está lotada, a maioria composta de turistas. A missa emociona. O padre celebra a missa em homenagem a São Luiz Gonzaga. Fui batizado na igreja de São Luiz Gonzaga. Padres que concluíram o caminho naquele dia: um francês, um coreano e um alemão são convidados a auxiliarem. O que quebra o clima mágico é a palavra dada a um general reformado e o sermão nacionalista e conservador do padre.

Começam a preparar o botafumeiro. Flashes e agitação, mas é um alarme falso. Os peregrinos de hoje não estavam cheirando mal.



Na saída reencontramos Wolfgang que nos indica uma pensão (Hospedaje Fonseca) que cai como uma luva para as nossas necessidades. Quarto com quatro camas a uma quadra do Obradoiro. A cidade estava lotada !

Cama com colchão de mola, lençóis impecáveis e toalha! Escolho uma cama e saio para comprar sabonete e Comped para as bolhas. Retorno para um merecido banho.

Saímos em grupo para fazer uma cópia da Compostela e encontramos a Daniella, que está com dificuldades em encontrar acomodações. A nossa pensão está lotada e Carlos a conduz a uma outra próxima à entrada da cidade.

Às 16h30m vamos para a entrada da garagem do Hostal dos Reis Católicos. Um certo exagero, mas garantimos o nosso lugar na fila. Por volta das 18h chega um grupo de estudantes espanhóis e um casal de jovens americanos.

Às 19h o manobrista nos dá uma ficha autorizando a entrada.

Passamos pelas partes sociais internas do hotel até chegarmos à cozinha. Cada um pega uma bandeja e o cozinheiro nos serve um prato de sopa; outro com purê de batatas e filé mignon e a sobremesa. Vinho e água e pão ficam à disposição. Levo o vinho e Luís Alberto a água, depois trazem mais um vinho. Jantar cinco estrelas, delicioso e de graça. Ao término levamos as bandejas de volta e observo o cozinheiro preparando o mesmo prato para ser servido no restaurante. Mesma porção e composição.

Famintos peregrinos e um jantar cinco estrelas (pelo menos o hotel é)

Saímos para passear e paramos em um bar para assistirmos ao jogo da eurocopa Rússia X Holanda, tapas e vinhos.

Na manhã seguinte retornamos ao Hostal onde tomamos o café da manhã.

Café da manhã nos Reis Católicos

Às 12h saio da pensão e me dirijo ao hotel onde devo aguardar pela minha esposa.

A Yô chega ao hotel por volta das 14h, vamos à Catedral. Faço as vezes de guia. Visitamos a cripta onde se guardam os restos mortais do apóstolo Santiago, abraçamos a imagem do santo e, quando observávamos a sua nave central, encontramos com o autor das frases que foram as minhas companheiras desde o início do Caminho. Paulo Coelho em pessoa!

Com Paulo Coelho na Catedral de Santiago


A última coincidência do Caminho.

20 de junho Arca O Pino A última refeição comunitária

Acordo às 5h. Carlos se encontra no refeitório. Logo depois chega o Luiz Antonio. Luiz Alberto dorme ainda. Digo aos demais para seguirem que espero por ele, mas a decisão do grupo foi de sairmos todos juntos.

Luiz Alberto levanta e se apressa para arrumar sua mochila. Explica que tinha ficado fora do albergue, pois o jogo terminara depois das 22h. Conseguiu entrar com a ajuda de uma peregrina que estava acordada no refeitório. Carlos diz que vira um peregrino chegar às 6h e entrar pela janela.

Tomamos café e saímos todos juntos. O tempo está nublado e quente. O caminho repleto de bosques. Continuo com a papete, mas após 20 km surge uma bolha no calcanhar. Luiz Antonio não se sente bem. Deve ter sido o vinho do restaurante. Eu também me sentia como se estivesse com ressaca.

Carlos e Luiz Antonio

Cruzamos com um austríaco e um mexicano que vinham pelo Caminho do Norte. Dizem que estranharam o albergue lotado em Astorga, pois havia pouca gente no referido caminho. Astorga é o ponto de convergência de diversos caminhos.

Decidimos fazer a última janta de forma comunitária. Carlos se oferece para ser o cozinheiro.

Próximo de Arca O Pino Carlos e Luiz Alberto resolvem colher couve de uma horta particular. Luis Antonio e eu seguimos em frente ignorando que eram nossos amigos. Mais a frente sentamos em uma área e aguardamos pelos dois. Logo chegam com um saco plástico com couve manteiga.

Chegamos à Arca O Pino, fatigados pela jornada. Luiz Antonio pede à hospitaleira uma cama para um "hospitaleiro cansado". Ela abre um novo quarto para que possamos dormir na parte de baixo dos beliches ou em camas individuais como o Carlos e Luiz Antonio conseguiram. O privilégio de estarmos bem acompanhados.




Carlos prepara a lista de compras e vou com o Luiz Alberto às compras (arroz, batata, azeitona, azeite, chorizo, feijão, pão e muito vinho). Assumimos a cozinha às 17h. Ajudamos no preparo dos ingredientes. Carlos assume o comando do fogão enquanto os demais tomam vinho.

Trabalho em grupo: Carlos prepara a janta e os demais acompanham com vinho

Às 18h é servido o jantar: o primeiro prato é um caldo gallego com couve no lugar de repolho; o segundo composto de chorizo, arroz, feijão e pão. Tudo regado de muito vinho é lógico. Foram 3 litros. Durante o jantar elaboramos o nosso plano para comer de graça no Hostal dos Reis Católicos.


19 de junho Melide Comer pulpo

A jornada nesse dia é longa, 40 km.

Saímos todos juntos. O percurso não apresenta dificuldades, apesar da ameaça da chuva ela não se faz presente. Carlos toma a dianteira e segue em frente.

Em Palas Del Rey paramos para o almoço. Luiz Antonio e eu paramos em uma tienda para as compras. Luiz Alberto segue em frente em um ritmo lento para que o alcancemos depois. Compramos empanadas e refrigerantes. Saímos para encontrar com Luiz Alberto.


Passados quase vinte minutos não conseguindo alcançá-lo resolvemos comer em uma área de descanso à beira da estrada.

Estamos no meio do almoço quando um pássaro pousa próximo e nos fita como se estivesse pedindo comida. Jogo um pedaço da empanada e ele pega com o bico e sai voando. Logo depois retorna, querendo mais.

Terminamos o almoço e saímos para alcançar o Luiz Alberto, o que ocorre, mais de uma hora depois em Coto.

Em Eireche um albergue que oferece água, café, bolacha e descanso aos peregrinos

Luiz Antonio discorre sobre a influência da Opus Dei na sociedade espanhola, sobre os templários e maçonaria. Apesar do peso dessa longa jornada, a conversa fez com que a superássemos com tranqüilidade.

Chegamos a Melide e atravessamos a pequena cidade para chegarmos ao albergue, que é muito bom.

Reencontramos com o Carlos que já estava devidamente acomodado.

Saímos mais tarde para tomarmos um chopp na a Sabine, uma alemã, consultora da Delloite. Ela diz que deve ir a Shangai para ficar por um ano e meio em trabalho de auditoria.

Na hora da janta fomos à Pulperia Ezequiel onde comemos o "pulpo a gallega", um pão delicioso e tomamos uma espécie de vinho branco servido em tigelas.
Comendo Pulpo à Gallega no Ezequiel


Na volta para o albergue, Luiz Alberto e Carlos decidem assistir à partida entre Portugal e Alemanha. Sigo com o Luiz Antonio para o albergue levando as compras e posterior retorno ao bar.

No retorno ao bar, cruzo com o Carlos que tinha desistido de assistir ao jogo. Decido voltar para descansar.

18 de junho Porto Marin Novo grupo e novo plano

Acordo cedo e saio com Carlos e Amélio.

O ritmo deles é muito forte e eu com as bolhas. Deixo-os seguir em frente, arrependido de não ter saído sozinho antes. Cada um tem que fazer o seu caminho. Começo a me concentrar mais na natureza e detalhes do caminho. O meu ritmo está muito lento.



Paloma passa por mim. Desejo-lhe Buen Camino. Logo depois chegam os dois Luizes.

Luiz Alberto é incisivo e manda-me tirar as botas e colocar as papetes. Digo-lhe que o farei no próximo bar e ele replica: "Na próxima pedra!" e segue em frente.

Só então percebo que estou muito lento. Sento na primeira pedra, tiro as botas (que alívio) e ponho as papetes. Penduro as botas na mochila e saio. Os meus passos voltam ao normal. Não sinto as dores. Reencontro com os dois em um bar e partimos juntos.

Esse trecho parece ser mágico os bosques com árvores antigas me remeteram às cenas do filme Labirinto do Fauno e do Harry Porter.

Na entrada da cidade a Margarete, mãe da Paloma, aguarda por ela. Já providenciara a hospedagem para ambas. Luiz Alberto brinca dizendo que as bolhas no Caminho são proporcionais aos nossos pecados.
Entrada de Porto Marin

Margarete:"as bolhas no Caminho são proporcionais aos nossos pecados"

Luiz Antonio passa a ser o nosso guia. Chegamos ao Albergue Municipal.

Albergue de Porto Marin

Após os procedimentos rotineiros saímos para o almoço: polvo, enguia, lula e cerveja porque está muito quente.

Mais tarde chega um casal que Caminha com sua filha pequena e dois burricos. Observo o cuidado que eles têm com os animais. Já tinha cruzado com eles antes de Villafranca Del Bierzo.

A cidade não oferece muitos atrativos. Jantamos no mesmo restaurante, o Rodrigues.

17 de junho Sarriá - Um novo grupo se forma

Acordo as 6h30m. Resolvo inverter a rotina e tomar café antes de arrumar a mochila.

Escovo os dentes e vou para a sala. Encontro com a Jina Lee que me oferece chá. Agradeço e digo que de manhã prefiro café puro para acordar.

Procuro pelo saco, com o meu sanduíche e frutas, que tinha deixado na mesa, na noite anterior e não acho. Jina diz que a Luzita poderia tê-lo pegado. Acho difícil. Nos albergues ninguém pega nada dos outros.

Lembro que tenho o sanduíche e as frutas que seriam meu almoço e os transformo no meu café da manhã. Mais tarde uma peregrina traz um saco. Vejo que ele contém uma caixa de suco igual ao que comprara no dia anterior, mas pode ser coincidência.

Tomo o meu novo café e subo para preparar minha mochila. À saída observo que a peregrina partira e deixara o saco na mesa. Abro-o e confirmo que era o meu. Recordo-me que no dia anterior ela tomava o vinho com outros peregrinos. Deve ter levado o meu saco por engano. Pego as frutas e deixo o suco e os bolinhos em cima de um balcão e saio.

O caminho é bom o tempo ajuda. Encontro com grupo de jovens com os quais tenho cruzado já há uns quatro dias. Tiramos fotos em uma fonte do Caminho.

Fonte com o símbolo do peregrino

Um grupo de espanhóis pede para tirar foto com algumas montanhas ao fundo, um deles me diz que atrás delas está a Espanha. Espanha? Não estamos nela? Pelo jeito não. Estamos na Galícia !



Chego às 12h30m em Sarriá e opto pelo albergue privado sugerido pela Luzita: Los Blasones. Sou o primeiro e mais uma vez escolho a cama que quero. O chuveiro é muito bom. Possui um quintal amplo com cadeiras para tomar sol e uma boa lavanderia. Tomo banho, lavo as roupas e saio para almoçar. Entro em um bar e peço uma cerveja e um "Pulpo a Gallega". Saio para sentar-me a uma mesa e aviso o dono. Lá fora, enquanto aprecio os prédios e o ir e vir dos peregrinos, uma mulher e uma jovem sentam-se à mesa ao lado. Começam a conversar em português. São a Paloma e sua mãe Margarete, que está com muitas bolhas que a impedem de caminhar. Ela segue de ônibus ou taxi, enquanto a Paloma faz o Caminho.

Elas pedem o menu peregrino ao dono e lhe recordo do meu pedido. A esposa do dono traz o primeiro prato das duas e no segundo pergunto à mulher o que estava ocorrendo com o polvo que pedira. Ela responde "acho que ele foi pescar!" e faz um sinal de que logo virá. Ela traz o polvo e depois de satisfeito retorno ao albergue.

Vou ao quintal para tomar sol e "secar" as minhas bolhas.

Surgem duas pessoas conversando em português. Chego a um deles e digo: "eu não sou coreano. Sou brasileiro. Muito prazer". É o Carlos de Mirandópolis o outro é o Amélio de Criciúma. Carlos diz que há mais dois brasileiros no albergue.

Saímos juntos para fazer as compras em um supermercado. Trazemos pães, chorizos, tomate, azeitonas e vinho, certamente.

Retornamos ao albergue e encontramos os dois Luizes, o Antonio e Alberto de Florianópolis. Eles saem para complementar a nossa janta com mais vinho e salames. Logo depois chega um jovem brasileiro chamado Caué, que passa uma temporada na França, trabalhando como voluntário em fazendas orgânicas.


O novo grupo: Luis Alberto, Amélio, Eu, Caué, Carlos e Luis Antonio

Após a janta assistimos à partida da Itália 2 x 0 França. A vantagem de uma albergue privado: sem hora para apagar as luzes e dormir. Infelizmento o jogo não foi muito interessante.

Assistindo ao jogo Itália x França

16 de junho Triacastela - O plano totalmente desconstruído !

Acordo às 4h30m, pois a minha meta é Sarriá, a 38 km.

Ainda está escuro e chove.

Levo meus apetrechos para o corredor, faço a mochila e vou ao refeitório tomar café.

A chuva continua.

Escuridão, chuva, vento e neblina e alguns peregrinos partindo.

Resolvo aguardar o dia clarear, pois tenho muitas dúvidas e insegurança. Penso no dia anterior. Se tivesse partido só, teria seguido pela terra e não asfalto.

As 6h30m começa a clarear, mas chove e a neblina continua.

Às 6h45m deixo o albergue. Lamento não poder apreciar a famosa paisagem da região, mas procuro imaginá-la sem a neblina.



Pela primeira vez sinto que a bota está se encharcando. O famoso impermeabilizante Gore Tex teria se rendido ao Caminho? Pensando bem até que ela segura bem a água, mas não dá para fazer milagres. Sinto os pés "nadando" dentro delas.

Os pés encharcados


Após uma subida pesada até o Alto do Poio e, antes de entrar no bar, vejo que só a mochila está quase seca. A capa, molhada por dentro, a jaqueta, o agasalho "fleece" por fora e por dentro, por conta do suor, a camiseta e o underwear tudo molhado. Acho que só a cueca se salvou.

Decido que paro em Triacastela. Que plano, que nada! Chego no dia 21 em Santiago, só não sei como. Mas chegarei inteiro e vivo.
A chuva diminui, mas surge a neblina


Entro no bar e vejo um grupo secando as botas na lareira. Tomo Cola Cao (o equivalente ao nosso Nescau ou Toddy) e café. A Jina Lee chega logo depois. Digo que fico na próxima cidade e ela diz que fará o mesmo.

Despeço-me e saio. O tempo continua implacável.

Já próximo de Triacastela a chuva diminui e para.

Chego ao albergue Aitzenea, em Triacastela. Sou recebido pela Luzita. Até o momento só há duas hóspedes. Luzita me mostra um quarto vazio, onde posso escolher uma boa cama.

Tomo um banho quente muito relaxante. Deixo todas as roupas com Luzita para serem lavadas e secas na máquina.

Desço e ouço música galhega, muito parecida com música portuguesa. Menciono essa "descoberta" à Luzita e ela diz que a Galícia pertencera a Portugal. Concluo, mais uma vez, que preciso conhecer mais a história da região.

Saio para comprar o meu almoço e volto para o albergue. Abro o vinho, monto meu sanduíche e está pronto para ser degustado.

Jina Lee chega e logo depois outros peregrinos. A música clássica envolve o ambiente. Depois chegam finlandeses, dinamarqueses, alemães, mais tarde franceses, etc.. Às 16h albergue está com cerca de 90% de sua capacidade. Todos comentam da chuva.

Deixo o albergue e passeio pela cidade. Chego a uma bifurcação que leva a Samos ou San Xil. O Naka me dera um roteiro para seguir para San Xil e a Mara por Samos. Quando perguntei ao Acacio, qual seria a melhor opção e ele recomendou para ouvir o meu coração e decidir. O meu coração diz para ir pelo mais curto, ou melhor, mais rápido. A dica da Tilara em seu blog me convence ir por San Xil.

Para onde ir ?

Observo os turistas e penso: "Peregrino de verdade anda mancando, mesmo aqueles que começaram há poucos dias. Calçam papetes ou chinelo de dedo com meias. Os outros sempre andam com roupas esportivas e tênis impecáveis."

Janto no restaurante Xacobeo: soupe du pays(sopa de batata com repolho) e boeuf grille au feu de bois (parrilla).

Restaurante Xacobeo e um taxi ao lado (um BMW!)

Antes de dormir deixo o café da manhã em um saco, na mesa do refeitório.

sábado, 13 de setembro de 2008

15 de junho O Cebreiro - A subida já era um desafio, mas com chuva a situação ficou pior!

De manhã, ainda no albergue Ave Fênix, um senhor se aproxima e pergunta se sou japonês. Digo-lhe que sou "sansei" e ele justifica a sua abordagem porque queria me alertar sobre o terremoto ao norte de Honshu. Conversamos um pouco porque ele só falava japonês e o meu é muito limitado.

Desci até o salão para me despedir do Jesus e Palma. Tiramos uma foto e parto com o Wolfgang. Wolfgang sugere seguirmos pela rodovia, pois com a chuva, o caminho tradicional fica intransitável.

Saída de Viloria de Rioja

O trecho é muito bom e com pouco movimento por ser uma estrada secundária. O acostamento por onde passam os peregrinos é protegido por uma murada. Passa-se por diversas vilas.

O ritmo do Wolfgang é de quem já foi maratonista, passamos por diversos grupos de peregrinos. Não me sinto em condições de acompanhá-lo e digo para seguir em frente. A meta dele é Hospital da Condesa, 3 km após o Cebreiro.

Paro em Trabadelo para tomar café e descansar.

Trabadelo a 190 km de Santiago e 559 km de Roncesvalles

Em Las Herrerías, início da subida a O Cebreiro, observo uma frase escrita no meio da pista: " this is the door to hell". Sigo um pouco mais e paro para lanchar e descansar. Sento-me em um banco à beira da estrada, pouco antes do início da trilha por dentro do bosque. Desembrulho meu "bocadillo" de queijo e jamón, quando um enorme pastor alemão se aproxima. A expressão dele é de querer comer também. Jogo pedaços do sanduíche para ele, enquanto outros peregrinos evitam passar próximos do meu novo "amigo".

Pedindo um pedaço do meu sanduíche

Termino o lanche e entro no bosque. No começo da subida a garoa começa a cair. "Chuva de molhar bobo". Ponho a capa e sigo. Estou só e a subida é cheia de pedras e íngreme. É cansativa, pela intensidade, diferentemente dos Pirineus. Paro em La Faba para recuperar o fôlego e me reanimar tomo coca cola acompanhado de um café expresso.

Logo depois se entra na Galícia, onde se localiza Santiago de Compostela.

Entrando em terras galhegas

A névoa encobre o Cebreiro, na minha chegada, ouço música celta vindo de uma loja, o que dá um clima mágico ao local.

O cebreiro

Sigo ao albergue e lá encontro o Wolfgang. Ele resolvera ficar por causa do mau tempo e de dores nas pernas. Me apresenta o Stefan, arquiteto da África do Sul.

Eu, Wolfgang e Stefan

O albergue é novo, mas com as instalações inacabadas. A cozinha sem utensílios, o banho insuficiente. Tomo banho em um container.

Saímos os três para tomar um chocolate, comprar algo para o dia seguinte e procurar um local para a janta.

Escolhemos um porque estava lotado. A comida era muito boa, mas o serviço... Esse realmente tem muito para melhorar.

Vejo que a Jinan também chegou. Wolfgang crê que ela seja a esposa do Woo Hyeon (o rapaz que estava em busca de sua esposa) e lhe indaga. Não é.

14 de junho Villafranca del Bierzo - Um peregrino à procura de sua esposa.

São 6h45m quando deixo Ponferrada. O caminho é tranqüilo. Levo na mochila frutas e sobras da tortilla. Decido que vou me alimentar bem e cuidar dos meus pés.

Esse trecho lembra a região de La Rioja com muitas plantações de uvas . É a região do Bierzo, cujos vinhos recebem a denominação de sua origem.

Vinhedos ao longo do caminho em Rioja

Chego às 12h30m e encontro um casal de hospitaleiros brasileiros Palma e Rosane. Parecem estressados.O clima entre eles e o Jesus Jato não parece ser dos melhores. Jesus esta ajudando um operário na montagem de uma casinha na entrada do albergue. As coisas só começam a funcionar quando sua filha chega e começa a receber os peregrinos.

Um dos quartos posssui vidros no teto para observar as estrelas. Vejo que os jovens preferem a parte de cima do beliche. É bom porque sobram as camas de baixo. Saio para conhecer a cidade e cruzo com a Jina Lee que está no albergue municipal.

Estrelas no teto do albergue Ave Fenix

Na volta vejo um grupo aglomerando-se à entrada do albergue. Era um grupo de turistas japoneses, cujo guia conversava com o Jesus enquanto alguns peregrinos carimbavam suas credenciais. Eram os turistas peregrinos como o grupo de alemães com quem cruzara em Hospital de Órbigo.

Começo a duvidar se as personalidades do Caminho são mitos ou são apenas personagens passageiros que serão apagados pelo tempo e a história do Caminho.

Reencontro com a Antoniela e o Malagueña. Vejo uma cara nova com a camiseta da seleção brasileira. É o Wolfgang, alemão casado com uma brasileira de Natal.

Antoniela e Malagueña registrando-se no albergue

Jantamos juntos com a Mari, japonesa que faz trabalha com cerâmica que irá a Panamá pela JICA para ensinar. Wolfgang conta que caminhara com um coreano chamado Woo Hyeon. Ele teria tido uma crise conjugal e a esposa o deixara para fazer o Caminho de Santiago. Após alguns dias ele decide então ir à sua busca. Passaram por albergues à procura de seu registro e localizaram o nome, mas até então não a tinham encontrado. Desde então Wolfgang tem procurado ajudá-lo na busca.

Malagueña Wolfgang e eu

Eu, Antoniela, Mari e Wolfgang

Antes de dormir, acompanhamos o Jesus fazendo Reiki.

13 de junho Ponferrada - Bolhas! Que burrice a minha!

Tomo café da manhã (café, leite, torradas tiradas na hora do forno e geléia ) com a Bárbara e Irene. Saímos todos juntos. Elas dizem que vão até El Acebo, 15 km antes de Ponferrada, minha próxima parada.

Irene e Bárbara

O ritmo das duas está bem abaixo do meu. Quando a subida começa a ficar íngreme, digo-lhes que as esperarei em Foncebadon. À entrada dessa vila cruzo com cães enormes, deitados à sombra e imagino dos cães (ou demônios ) citados por Paulo Coelho. Peço café no albergue local e espero pelas duas.
Cães (felizmente) dormindo à sombra

Passados alguns minutos, chega a Bárbara. Conversamos rapidamente e lhe digo que seguirei, nos despedimos e deixo um abraço para a Irene.

A caminho da Cruz de Ferro pego uma pedra, pois quero deixar registrado o nome da Yo (minha esposa) e o meu, além de deixar a que trago do Brasil.

Esse é um dos locais mais mítico e emblemático do Caminho. Crê-se que a cruz primitiva foi levantada sobre um altar romano dedicado ao deus Mercúrio, deus dos caminhos, pelo ermitão Gaucelmo, que dedicou sua vida a dar proteção e amparo aos peregrinos nessa região inóspita.

Cruz de ferro


Pedra com o nome da Yo e o meu

Em Manjarín encontro com um dos mitos do caminho o Tomáz de Manjarin, que se autodenomina "O Último dos Templários". Digo que sou do Brasil e que trago abraços dos muitos amigos que ele tem por aqui. É um local com infra-estrutura precária. Deixo Manjarin com dúvidas se isso é um mito ou folclore.

Manjarín - Placa com referência ao Caminho do Sol

O caminho que segue em ascendente ate 1540 m, depois começa descer. Beira uma ribanceira que acompanha uma estrada sinuosa.

Passo por El Acebo, onde as duas devem ficar e chego Riego de Ambrós, já meio cambaleante. Os meus dedos começam a reclamar. Os cadarços estavam soltos por causa da tendinite e, durante a descida, os dedos socavam a biqueira por dentro. A descida piora muita pedra e muito íngreme. Parece não ter fim. Após 1h30m chego a Molinaseca.

Deu uma vontade muito grande de ficar ao ver um restaurante à beira do rio e vários peregrinos lá descansando. Sigo pela rua principal e, a uma quadra do fim da cidade, paro em um hotel peço café com leite e "aseo". A mulher que indica os "servicios". Pego o café e vou para as mesas externas. Procuro relaxar e apreciar o café quando surge o Luque. Ele me cumprimente e entra no bar do hotel onde conversa com a mulher e pede alguma coisa. Acabo com o café rapidamente e caio fora antes que ele saia. ´"Pé na estrada".

O caminho após Molinaseca não apresenta muitas dificuldades mas a queda de ritmo, decorrente da dor, provoca um stress. A cidade surge no horizonte, mas o caminho parece dar voltas.

Chego no albergue às 14h30m já no meu limite físico e mental.

Albergue dos peregrinos Ponferrada

Sou recebido por uma hospitaleira que gentilmente oferece aos peregrinos uma limonada refrescante.

O registro é feito por um hospitaleiro que me informa que não cobram diária e me indica um cofre para doações. Digo que estou sem trocado e ele me olha desconfiado.

Outro hospitaleiro me conduz ao quarto e indica onde devo me acomodar. Vejo e Jina que também acabara de chegar.

Saio do albergue em busca de supermercado e conhecer um pouco da cidade. Visito fortaleza dos templários e depois compro a minha janta, café da manhã e lanche da caminhada.

Fortaleza dos templarios

Durante o jantar observo um peregrino que começa a procurar pelo responsável por uma panela que estava ficando sem água. Ele pergunta em inglês e de repente fala em português. É o Malagueña de Jundiaí. Ele apresenta a Antoniela, santista que vive na Suíça, um rapaz espanhol e um francês.

Após o jantar resolvo dar uma olhada nos meus dedos dos pés e descubro bolhas enormes embaixo da unha. Fui um burro! Devia ter parado na descida e ajustado as botas.

12 de junho Rabanal del Camino - Tomar chá da tarde e assistir a uma missa com cantos gregrorianos

Saio as 7h20m com a Bárbara e a acompanho até Santa Catalina de Somoza. Sentamo-nos em um café e ela diz estar se sentindo bem, apesar das dores. Seguimos em frente, mas começo a distanciar em função do meu ritmo.

Santa Catalina de Somoza

Pausa para um café com a Bárbara


Chego a uma vila chamada El Ganso. Vejo que há um bar chamado "Cowboy", um pouco estranho, de modo que sigo em frente. Passados uns 30 minutos paro em uma área de descanso para peregrinos, muito comum no Caminho. Como uma maçã. Aguardo mais um pouco pela Bárbara, como ela não chega, sigo em frente.

Próximo à entrada de Rabanal del Camino encontra-se o "Roble Del Peregrino" o "Carvalho do Peregrino" a uns 50m do Caminho. É uma árvore centenária que certamente ofereceu sua sombra a milhares de peregrinos que por lá passaram.

Sento em um dos bancos. Do lado oposto uma mulher também faz o mesmo. Ela se aproxima e me pede, em inglês, para tirar sua foto. Peço para que faça o mesmo para mim. Pergunto de onde ela é e me responde: Brasil! É Irene, paulista que vive em Niterói. Digo a ela que há mais uma brasileira a caminho e logo depois chega a Bárbara, com quem seguimos para Rabanal del Camino.

Carvalho do Peregrino

Em Rabanal Del Camino, por pouco não passamos direto pela cidade. Procuramos por um albergue e encontramos o Gaucelmo, mantido pela "English Confraternity of Saint James". Já ouvira falar desse local e resolvemos ficar. São 13h40m e o albergue abre às 14h. Colocamos nossas mochilas junto à entrada e sentamos na escadaria de uma igreja junto ao albergue. Bárbara compartilha conosco seu sanduíche de queijo.

Com Irene e Bárbara à entrada do albergue Gaucelmo

Às 14h, pontualmente, abrem o portão. São três hospitaleiros (Priscila, Michael e Grahan). O ambiente transmite um clima muito positivo. Um hospitaleiro dá as boas vindas, fala das instalações e das regras (não cobra diária, oferece um chá às 16h e café da manhã, tem um jardim nos fundos, etc.), outro registra e o terceiro faz questão de levar a mochila do peregrino para o quarto. O albergue oferece gratuitamente uma centrífuga que deixa a roupa quase seca.

O tempo contribuiu para que o chá da tarde que fosse servido do lado externo. Sento-me ao lado de Jina Lee, coreana, arquiteta e "wedding planner'. Um dos peregrinos pede licença para mostrar o albergue a um amigo que se hospedara em outro albergue. O hospitaleiro convida-o para juntar-se a grupo.


Chá da tarde no estilo brtitânico

Saímos pela vila, após o chá, em busca de alguma "tienda" para comprar frutas e pão para o lanche do dia seguinte e pesquisar as ofertas de menu peregrino na cidade. Logo após fico em um bar para assistir a mais uma partida da Eurocopa, desta vez Croácia 2 x 1 Alemanha.

As 19h vou à igreja para assistir à uma missa celebrada com cantos gregorianos, celebrado por monges de um monastério vizinho ao albergue.

Saímos após a missa para jantar no Hotel La Posada Gaspar. Lá encontramos os nossos hospitaleiros, o que nos indicou ter sido uma boa escolha. Não demos conta da comida e nem do vinho.

11 de junho Astorga - Dia de reencontrar um dos meus "demonios" do caminho

De manhã encontro com o Acácio e conversamos no salão quando chega Bárbara. Ela conta que estava quase desistindo do Caminho em León. Chegara a ir até o aeroporto para antecipar seu retorno ao Brasil, mas algo a fez desistir da idéia. Ela estava radiante pelo fato de ter encontrado um grupo de poloneses e brasileiros no albergue o que a deixava motivada a seguir.

Bárbara nos deixa para se juntar aos poloneses para tomar café.

Sigo conversando com o Acácio, sobre a tendinite e do fato de não gostar de caminhar à beira da estrada. "Talvez sejam os seus demônios" diz ele. Conheço Marcel e Edinho, brasileiros que vivem na Espanha e estão com a equipe de montagem da exposição da Cristina. Despeço-me do pessoal e saio em direção a Astorga.

Ao chegar à Villares de Órbigo, centenas de andorinhas sobrevoam pela cidade ainda deserta. Os sinos da igreja como por todo o caminho, nos acompanham, repicando a cada 15 ou 30 minutos, dia e noite, dependendo da cidade.

Homenagem aos peregrinos na Cidade de Villares de Órbigo

Penso no significado da palavra religião: Religar. Religar o homem ao sagrado, a algo superior, desconhecido. Penso nas milhares e milhares de pessoas que fizeram o Caminho e nos outros que virão, independentemente de sua religião, movidos por algo que chama por elas.

Ao aproximar de Astorga somos contemplados com uma bela visão dessa cidade no alto de uma montanha, onde se localiza a Cruz de Santo Toríbio.

Vista de Astorga
Chego às 13h em Astorga. Passo pelo albergue paroquial onde a maioria se hospeda. Vou para o San Javier, um albergue privado, por recomendação do Acácio. É um palácio do século XVII restaurado e modernizado internamente. Chego ao local e confirmo tudo o que ele dissera. A hospitaleira se chama Chus, jovem, simpática diz que não preciso tirar as botas. Ela me mostra as acomodações. Chuveiros, banheiros, lavatórios e tanques devidamente organizados. Quarto enorme com mais de 100 lugares (camas e beliches), muitas janelas, o que o deixa bem arejado. Escolho uma cama bem ensolarada, embaixo da janela.

Albergue San Javier

Começo a arrumar a cama, quando surge a Jéssica, a portuguesa que caminhava com o Luque. Desta vez acompanhada por um senhor, aparentemente alemão. Ela se queixa de dores e diz ter vindo de carona.

Saio para comer Maragato, prato típico de Astorga, que tem origem nos maragatos, um povo viajador e empreendedor, percorriam toda a região ocidental e central da Espanha vendendo principalmente seus produtos artesanais. O cozido servia para alimentá-los em uma só refeição, seguindo uma ordem específica para comer os alimentos mantida até hoje.Primeiro prato: carnes (pés e orelhas de porco, cordeiro, toucinho, chouriço, morcela, frango e carne de vaca); segundo prato: grão-de-bico cozido com repolho, verduras e batatas; para terminar, sopa de macarrão e "el postre" a "natilla", doce cremoso feito com ovos, açúcar e leite e que se assemelha a um mingau de maisena.

Passo por diversos restaurantes, inclusive do Hotel Gaudí e opto pelo "Las Termas". Sou o primeiro cliente. O dono me atende e ao saber que sou brasileiro, diz que esteve no Brasil em fevereiro (Rio e Bahia), coloca como fundo musical um "Axé" e começa a servir os pratos.

A cada um deles pergunta se está bom e se não quero mais de algo específico? Da próxima vez pagarei o almoço a quem comer tudo que eles servem. É insana a quantidade.

Ao término do almoço pergunto pelo seu nome: "Santiago" diz ele e me dá um cartão do restaurante, localizado à Rua Santiago número 1.

" Si vais a Las Termas en Astorga no te olvides de ir a Santiago ". Frase inscrita no livro de visitas do Las Termas.

No albergue encontro com a Bárbara, a polonesa. Ela se queixa das dores e diz que fora convidada por outro peregrino a ficar em um hotel. Ela negara. Digo a ela que ele poderia estar bem intencionado. Ela diz que não. Coisas do Caminho...

Ao adentrar no quarto, quem está na cama vizinha: Luque (o francês)! Definitivamente o meu demônio. "Fujo dele e sempre aparece".

Ao sair depois da "siesta" encontro com as austríacas, no mesmo albergue, as de SJPDP. Saio pela cidade e vejo os mesmos rostos.

Visito o museu e o palácio inacabado de Gaudi. Lembro do Danilo, meu filho, que me falara da obra inacabada desse arquiteto, e vejo que a sua obra maior foi a, também inacabada, catedral de Barcelona, onde passara seus últimos dias dedicados à obra, tendo recusado qualquer outro projeto, a ponto de viver dentro da dela.

Palácio episcopal (Obra inacabada de Gaudí)


Detalhes do interior do palácio


Reencontro Isabella na Plaza Mayor onde entro em uma loja para fazer um backup das fotos.

Resolvo comprar a janta pronta no supermercado e, na saída, reencontro a Jéssica, que me apresenta a Cristina, brasileira de Freguesia do Ó. Cristina comenta que está com medo do francês que estava com a Jéssica. Parece quer ele tem diversas credenciais em diversos nomes. Ele teria se masturbado em frente da Jéssica. Digo a ela que se for o caso, poderíamos sair e caminhar juntos ela agradece e entra para jantar com a Jéssica e seu amigo.

Volto para o albergue. Janto o prato de supermercado: "risoto de mejillones". A Bárbara está sendo atendida por um massagista do albergue. Converso com ela e vou dormir.